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ALMENARA

Rogério de Almeida

 

          Almenara foi publicado em junho de 1999, com uma tiragem de pouco menos de cem exemplares, esgotando-se na própria semana do lançamento, pela Série Badaró, que foi fundada e existiu para publicar livros de novos autores. Como o número de interessados em conhecer o livro não se esgotou com os exemplares publicados e não há previsão de relançamento, que a Internet abrigue os 17 poemas que compõem o livro, possibilitando a leitura dos interessados e dos que porventura aportarem nesta página.

 

 

Contato: roalmeida@uol.com.br

 

Sumário

 

Brasão

O LabirinTo e a Torre

Metrô

Vastador

Os Jardins da Memória

A Dor

Ébano-Voz

AmpullaspeculuM

Os Palácios do Exílio

Oração À Nossa Senhora do Caos

Bíblia Boba

Madeira, Prego e Voz

As Profecias

Fábula

Ícaro

O Grito

Óptica

 

 

 

I

 

BRASÃO

 

Eu escrevo:

Construo meu castelo.

Metal jalne,

Fundo sable,

Pele veiro em vento de esmaltes.

 

Eu escrevo:

Teço minha torre

Como se de tão alta se visse o futuro.

Nela sou eu quem ilumina,

Farol de Alexandria,

Almenara.

 

Como se talhada em pergaminho

A palavra se tornasse viva,

Livre como o que voa, ave sonora,

Coroa esculpida em timbre eterno.

 

Elmo em movimento de luta:

Bruta, a máscara emoldura a alma.

As armas

E os leões assinalados,

Rompentes como os templários.

 

Eu escrevo:

Corpo morto em campo santo,

Meu manto ladeando os braços:

Carne tornada aço.

 

A lança em arremesso largo:

Que não se perpetue em sangue

O sêmen da criação.

 

A minha vitória sem árvore genealógica.

 

Eu escrevo:

Desvendo desertos,

Caminho como quem se perde, persiste,

Como quem cede, eterna sede

De conquista, como quem pede, resiste,

Insiste no que aos olhos é além da vista.

 

Na torre o fogo é arauto:

Sou a morte, osso da vida,

Espada rasgando a carne

Como quem corta de dentro do corpo

O corpo vivo do corpo morto,

Escudo trincado de trevas.

 

Eu escrevo:

Prego a cruz em minha pele

Por proteção.

Nem porque casto

Castigo o coração.

 

Eu escrevo:

Escrevo para mim,

Porque em mim nascem os nomes.

 

Escrevo para Deus,

Para que Deus não se envergonhe

Dos homens.

 

O LABIRINTO E A TORRE

 

Os homens mais sábios do reino

Ousaram empreender a tarefa impossível.

Desocuparam-se da moral, da política e da religião;

Sobrepuseram-se à natureza, à sociedade e à arte;

Reservaram a metafísica aos ficcionistas;

Aboliram da filosofia o conhecimento e suas teorias

E elegeram o científico poder da observação

Como o único guia da grandiosa tarefa.

 

Primeiro, a Torre. Construíram-na os escravos

De inúmeras gerações, sem jamais conhecer o motivo.

Altiva, tocava as nuvens.

A base, mil homens não poderiam abraçá-la.

A cúpula como uma inconsultável biblioteca.

Não havia como subi-la em uma vida,

Mas os sábios já estavam lá em cima.

 

Depois, o labirinto. Infinitos escravos

Ergueram seus muros sem jamais vislumbrar

A entrada ou a saída; não se sabe se há.

Quando as pedras acabaram,

Retalhadas todas as montanhas,

E as florestas decapitadas

Não verteram mais madeiras,

Os homens usaram os ossos de outros homens

E assim se construíram seus sete mil caminhos.

 

Em cada encruzilhada ordenaram os sábios

Que se encadeassem obstáculos.

Leões e tigres, espelhos e abismos,

Rochas, relógios, sereias e serpentes,

Torniquetes, ciclopes, mares e pântanos,

Zigurates e forcas, fogueiras.

Mas também artifícios de fuga,

Como uma corda, uma pedra, um cajado,

Gravetos de fabricar fogo, facas, machados.

E de cada homem se esperou, confiança cega dos sábios,

A inteligência voraz e a vontade de vida.

 

E séculos sobre séculos, sábios sucederam sábios.

Do alto da torre anotavam em blocos de pedra, papiros,

Pergaminhos, papéis, livros,

Os resultados do interminável trabalho:

Proposições, sentenças, assertivas;

Silogismos elaborados, comparavam premissas,

Invertiam argumentos, concluíam, desmistificavam.

Solipsismo, panteísmo, doutrinismos,

Prolegômenos apoteóticos pontoando a investigação

Dos caminhos e conhecimentos do homem.

 

E hora após hora, homens enterraram homens.

De dentro do labirinto suportavam suas vidas

Desafiando o destino a cada desvio de caminho.

E esmurraram muralhas, rastejaram em masmorras,

Mergulharam em misérias sem achar as chaves da prisão.

E enquanto alguns caçavam tigres

Outros tombavam em abismos,

E se varões envelheceram em espelhos

Houve velhos que venceram serpentes.

E de tudo, nada escapou às penas dos sábios.

 

E quando, finalmente concluso o trabalho,

Os sábios comemoram a descoberta final –

Que cada homem contém em si vários homens

Que se sucedem e se repetem sem jamais se unir

Pois para o equilíbrio da raça

Um homem nunca é sempre o mesmo homem –

Um se revolta, como se do labirinto intuísse a Torre,

E, machado contra o muro,

Instaura solitário a demolição.

 

Os sábios não se assustam com a insurreição,

Sabem que o homem é sempre um outro homem

E esperam serenos o infalível cansaço que silencia machados.

Mas o momento não vem.

Os tempos reúnem-se no tempo

E machados, martelos e pedras repetem o gesto

Na coincidência única dos destinos

E enquanto todos os homens são um só homem

O labirinto rui e, por fim,

Como toda vontade que se torna verdade,

Desaba.

 

Mas a Torre, encolhida em sua altura,

Ainda está por tombar.

 

 

METRÔ

 

                                                                                                                     Visita Inferiora Terrae

                                                                                                                     Rectificando Invenies

                                                                                                                     Occultum Lapidem

I

A cidade

 

São Paulo

Terra mágica de mágicos navegantes

Cidade noite

Cidade nuvem

Cidade outono

Cidade mar aberto de tempestades esguias e ventos flâmulos

Cidade arredia de luzes parcas e parcos sonhos

Cidade mundo

 

Um anjo negro de couro vestido

Benzendo a cidade

Brotado do asfalto

 

Neon

Bares sujos

Boates bordéis

Bisturis enfáticos lapidando prazer

 

A puta sai do lado escuro da rua

E vai aonde há luz

Carros param

 

Buzinas

Barulho constante

Constante ronronar de camas e grades

Hospícios e favelas

Velas no cemitério abandonado

 

Debaixo da terra

A morte silencia

Debaixo da terra

O mundo vai rápido

 

Passageiro corre catraca

Entra trem

 

II

O metrô

 

Vários vagões nos vagalhões férricos

Trem de velocidade vasta

Túneis de luzes fracas

Multidão

 

Olhares entrecruzantes

Passos indelineáveis

A dança de corpos frouxos balançantes

Beliscando os falos metálicos de apoio às mãos

 

Vão

Chão

Escuridão

Eletricidade constante encavalada em trilhos tétricos

Plataforma velada por remotos olhos vítreos

Imensidão

Gente que vai vento na cara e varizes lúgubres

Seus passos seus espaços

Confusão

 

O sinal toca

O homem corre

Sua perna pende presa

Com esforço se solta

 

III

Portas automáticas

 

As portas se fecham

Parte o trem

Carregando vagando andando indo ando

Esperando

 

A cada estação

Repetição

 

E

Retoma

E reparte

E repete

E retorna

 

E chega

E sai

E vai e vem

E trem e trem e trem

 

E não tem

Ninguém

Que vê

Que eu vou

 

Entre prédios e tédios e homens de terno

Entre pombas e bombas e tempos dispersos

Entre a vida e a morte e o calo no pé

 

Uma velha se abaixa e pega a moeda

Ergue-se rindo

 

IV

Deus-dinheiro

 

Óleo da máquina

Que move o mundo

Arco nulo sujo

Arremessando flechas

A alvos turvos

Celulose

Celulite

Servidão

 

Cota de coice que se pode distribuir

Ilusão pré-fabricada

Escravidão não anunciada

Pernas que se podem seduzir

Na amplidão da sombra

Que sonda o abissal

 

Um homem abre a carteira

E a morte lhe sorri

 

V

Estação Sé

 

Umbigo da cidade

 

A catedral

Bela suja nunca

De portas abertas

Desperta solidão

Enrustida

A fé perdida

Tentação

 

Cristo passeia

Entre mercadores

Anônimos

 

Destruição

 

A morte arrebanha

Deus separa

 

Um cinema fecha as portas

Por duas horas

Para a lavagem do esperma

 

A praça

O largo

Umbigo não

O cu

Urubu em céu cinza

Azul

 

Aleijado de perna encolhida

Sorri pra ela

E a moeda tilinta

 

Estação Sé

Desembarquem pelo lado esquerdo do trem

 

VI

A máquina

 

Mil volts

Cavalo vapor

Motor máquina

Trilhos tumor

 

Como câncer disposto a correr a cidade

Em sangue

 

Nada acalma

A fúria de ferro

Que entre o prático e o belo

Desencrava o inferno

 

Um corpo é recolhido

Inoportuno esmagado

Atraso do trem

 

Descarrilha explode espatifa

Recolhe engole desperdiça

Corrente elétrica e limite da vida

O metrô é vivo como a morte armadurada

Amargura de cidade desastrada

Que imita o homem como cobra domada

 

No escuro que silencia

Um morcego voa raso

 

VII

Revoada dos morcegos

 

Voa em névoa renovada

O sibilo solitário do trem

Estanca pára

Recolhe

Seu rastro é silêncio que principia

Noite que acaricia

Ciciar

 

Enquanto os homens dormem

O lobo caça

Seu uivo é espelho

Espelha fumaça

 

Uma estrela cai como choro

Na cidade enraivecida

E a vida ergue-se morta

Das mudas portas do cemitério

 

Sem espreita

Sem mistério

 

O sol arrebenta

Em luz

 

 

VASTADOR

 

Deserto ou Oceano:

Muda-se o sono

O sonho é sempre engano

 

Deserto e Oceano:

Na vastidão de trevas

Um círculo de luz

 

Refúgio

Paisagem devastada

Vestes de areia

Velam pedras machucadas

O solo batiza-se de sangue

Restos de mortes

No dorso do mundo

 

Um grito negro rompe o céu

Desata em queda rápida

A máquina de produzir nadas

E em suas esferas

A vaidade e a solidão

Entretecem-se

Secretas e ingratas

 

Deserto no Oceano

 

Descanso

Manto de mares

Nuvens nos mastros dos barcos

Lâminas de aço

Estilhaçam rios de vidro

Não é de sangue o vermelho do inferno

Insônia e calafrios

 

Os mitos

Embriagados encravados incrédulos no túmulo marítimo

São ainda um ritmo único

Dilúvio de lemes

Veias em tempestade de vozes

Os ossos recordam

Suor nostálgico

 

Deserto e Oceano:

Os demônios se aquecem

No mesmo fogo

Que os anjos

 

Deserto ou Oceano:

Muda-se o sono

O sonho é sempre engano

 

OS JARDINS DA MEMÓRIA

 

Recorda, ó Memória, os jardins do palácio

De onde os pensamentos projetavam torres

Que tocariam o céu sem ferir os deuses

E por mim o sol não as tombaria em sombras.

 

Percorre, ó Memória, os caminhos do sonho

Quando um deus havia em mim menino

E celebrávamos alegres o poder sobre o destino

A quem nem queda ou castigo semeasse o medo.

 

Mas eia! Nas trevas o tempo reavivou os vermes

Que róem da espada o ferro e a força

A deixá-la frágil ao que seja eterno,

Lâmina cravada na pedra do esquecimento.

 

Mas eia! Se não há espada que eleve os pensamentos,

Que não haja torres nem sonhos nem deuses.

Que as sombras do tempo escureçam o palácio

E que morra o jardim a quem não soube vivê-lo!

 

A  DOR

 

A dor olhou-me nos olhos

E fez-me espelho do mal em mim.

Glórias? Riquezas? A vida oferecida

Em sonhos por outros sonhados?

Prazeres e pecados povoando a alma

Que almejou ao eterno jardim.

 

A dor tocou-me nos ombros

E atirou-me ao abismo da solidão.

Amigos? Mulheres? Noites iluminadas

Por pernas, bebidas e beijos?

Dívidas e desejos devastando a alma

Ancorada em profunda escuridão.

 

A dor beijou-me na boca

E sorveu-me o ser pela raiz.

Culpa? Pesadelo? Promessas pequenas

Que se perdem na amplitude do perdão?

Doçura e tentação torturando a alma

Até que a morte me acorde – de tudo que fiz.

 

 

ÉBANO-VOZ

POEMA-ALMA

 

Estrondo como cair de árvore

Em arremedo o arrebol

Se era azul o céu

Minha alma pirilampo

Como pilhéria em festa de numes

Dardejando lumes

Dir-se-ia gumes de sol

 

E se era alegria

Convulsão ou fantasia

De súbito enfeitiçou

Zunir de vento em fresta fábula

A mata toda em disforme retumbar trovejou

Nada trinou que não tremeluzisse

Assim é que se existe

Assim eu nasci

 

Como o fluir da fina névoa

Em farfalho de sombras

Uma árvore fadada à queda

Ébano

 

Concebo-me em extremos

A pálpebra pesada

Possuindo pesadelos

Seiva bruta

Abrupta emanação

Sangue e sombra

Raiz

 

Sonho é solidão

 

Olhos comprimidos

Não ao longe podem ver

Olham para dentro

Espasmos

Espaços

Tormentos

Fogueira

Ora brasa

Ora alastramento

 

E a alma aflora

De forma misteriosa

Espécie de luz própria

 

Uma alma de sombra

Escura escura

Transbordando brilho

 

E as mãos caídas

Roçantes

Rubras e frias

De ossos esvoaçantes

 

Espera um instante

Quero uma gota de ódio que ainda me faça viver

 

Um passo

E o precipício

Assim é que se vive

 

Exilado em deserto

Desolado ávido

Cego e vasto sem respaldo

Condenado e livre

Feito um grito ecoando infinito

Inocência

 

Da fissura

Não se vê o fundo

 

Existe milagre?

 

Sem foice embora afiada

Vem a face negra da amada

 

Eu queria uma poesia que fosse

A pura transubstanciação do ser

Algo assim como

A sombra da nuvem descobrindo a manhã

Festa de fábulas farfalhantes

No conhecer do tudo-novo-sem-antes

 

Difícil de conseguir

 

Pétalas murchas

Em vento negro

 

Alçar ao céu

Feito anjo

Paz

Na voz há qualquer coisa que não se perde

Se chora

O mau espírito vai embora

 

A voz

 

Uma semente voada pelo vento

Serena e sozinha

Renovando a vida

 

Eu sou sem corpo

Tronco morto no mundo

Ébano

 

O sol nos meus olhos

Fechando meus olhos

Olhos noturnos

Ebâneos olhos

 

AMPULLASPECULUM

 

Quando à noite no escuro sozinho contra tudo me vigio

Na esperança de ver-me todo meu ser além-semblante

Que transparente voa ao rente véu que segrega a vida

Do invisível segredo vendado que não vejo

Vejo-me verme a rastejar através do vulto

Oculto entre os vãos e nãos do rosto

Estampado em sangue vermelho

Ainda que não vendo

Vejo-me a ver-me

Olho da alma

No espelho

Do eu

No espelho

Olho da alma

Vejo-me a ver-me

Ainda que não vendo

Estampado em sangue vermelho

Oculto entre os vãos e nãos do rosto

Vejo-me verme a rastejar através do vulto

Do invisível segredo vendado que não vejo

Que transparente voa ao rente véu que segrega a vida

Na esperança de ver-me todo meu ser além-semblante

Quando à noite no escuro sozinho contra tudo me vigio

 

 

OS PALÁCIOS DO EXÍLIO

 

Casas e carros correm como asas

Águas levam glórias e riquezas

E voa a vida como folha ao vento

 

Não sou um palhaço

Não sou uma linda mulher

O que fazer neste palácio de sofrimentos?

 

ORAÇÃO À NOSSA SENHORA DO CAOS

 

Nossa Senhora do Caos

Dai-me cor e coragem

Curai-me

Dai-me cruz e corpo

Coroai-me

Dai-me fé e fome

Forçai-me

Dai-me flor e febre

Fortificai-me

 

Nossa Senhora do Caos

Dai-me Deus e dinheiro

Divagai-me

Dai-me dor e dúvida

Destinai-me

Dai-me ode e ócio

Ocultai-me

Dai-me o que és e esperança

Esperai-me

 

Nossa Senhora do Caos

Dai-me céu e sexo

Serenai-me

Dai-me sol e sombra

Sondai-me

Dai-me som e sono

Silenciai-me

Dai-me são e sangue

Sonhai-me

 

Nossa Senhora do Caos

Dai-me léu e leme

Lagrimai-me

Dai-me lã e lava

Lavai-me

Dai-me lua e luta

Livrai-me

Dai-me luz e luto

Levai-me

 

Nossa Senhora do Caos

Dai-me uso e útero

Unificai-me

Dai-me nó e nuvem

Nomeai-me

Dai-me voz e vento

Velai-me

Dai-me véu e visão

Visitai-me

 

Nossa Senhora do Caos

Dai-me jus e jogo

Julgai-me

Dai-me tez e tino

Tocai-me

Dai-me rum e rumo

Ressuscitai-me

Dai-me ar e ânimo

Amai-me

 

Nossa Senhora do Caos

Dai-me mel e medo

Multiplicai-me

Dai-me mão e morte

Musicai-me

Dai-me pão e pena

Purificai-me

Dai-me paz e paciência

Perdoai-me

 

II

 

 

BÍBLIA BOBA

 

          Caos. Silêncio escuro. Ausência. Abismo circunfluente. Pré-nada. Proêmio, preâmbulo, prelúdio. Deus pendente em vácuo viscoso evidencia. Dormência. Dormi­tude. Infinito pendular. Zero. Oclusão eternal. Latência incólume. Gérmen. Flutuação. Até que. Súbito. Rápido. Zás. Bum. Acorda Deus explode universo. Florir. Unir. Co­meçar.

          O começo do mundo. No princípio criou Deus o céu e a terra. Céu, sibilante, similar, envolteou a terra em circunfechar. Algazarra. Terra, inválida, vazia, em nada vasculhada, viscerou. Amálgama. E tudo-duo em trevas trovejantes tartamudeou. Es­cuso escurejar. Devassidão. Haja luz. E luz se fez. Clariclareou. Luciluzente. Brilho alvado. Brancoso. Lucescente. E Deus sentiu-se contente. Alumiado. Perene alumbrar. E Noite foi como se chamou as trevas. Dividida. Dissentida. E Dia foi como se cha­mou a luz. Lume. Éter. Divisão. Houve de-noite e de-dia. Assim foi. O primeiro dia.

          Água. Liqüifluente alagar de terra-tudo, terra-mundo. Alastramento. Brotar de lágrimas. Aguar. Deus flutuante boiado apoiado se fazendo molhar. Suor de lidador. Laboramento. Mergulhitude mergulhidão. Deus indo lindo, na fluidez pacífico, aven­tando o navegar. Auscultando. Criação. Oceano impetuoso. Ondaveloz. Marulho ma­rinho murmúrio do mar. Mareante. Ou calmaria de marasmar. Maré baixa. Anda-onda de amansar. Mansidão. Caminhar tranqüilo de Deus solitário lúdico levitando pela sobre­face aqualanguilúbrica do mar. Revira e revolta e volta a respirar. Lufa-lufa de exímio contentar. Houve de-noite e de-dia. Assim foi. O segundo dia.

          Plantação. Terra arada. Inseminação. Relva rente em deleite. Ervaçal. Adubo aduno. Advento. Vento-alastrar. Folia de folhas em resfolegar. Floração. Fruto e se­mente. Fibrilação. Árvore-carne. Copa e raiz. Deus que a tudo fez viu-se feliz. Flori­festejou. E roseiras espinhudas fez que não houve quem as tocasse. Nem larva lesma verme que em sombras as sugassem. Sagração. De graças o rés verdificou. Realização. E tronco truncado em cruz cascado foi ao alto. Devotamento. E retocar de aprumo e permeio. Arremate. Houve de-noite e de-dia. Assim foi. O terceiro dia.

          Sol. Pendido pendurado, puro ouro de luz carregado. Luzidio. Amarelo-vermi­nado. Escorregadio. Lustrino lustroso de gravitroante retumbar. Leve livre longe. In­sípido explanar. Dono do dia. Soberano no verão. Oposição: Lua. Rainha nua de em­prestado rebrilhar. Reflexão. Da noite noiva, do céu servidão. Língua míngua mágoa. Melancolia estancada. Consternada de lágrimas estreladas. Fulguraz. Envolteada de voláteis constelações. Estrelas vivazes. Cintilante cintilar. Fugazes como o desabro­char. E enquanto um nasce o outro cai. Abandono no por detrás do mar. Sem beijo nem ensejo. Embora o desejo. Embora revigore o distante entreolhar. Reiterante reno­var. Absorto absconso absoluto. O obstar. Houve de-noite e de-dia. Assim foi. O quarto dia.

          Vida. No mar, entre frêmitos, fizeram-se peixes, viventes seres. Infantes, gigan­tes marinhos. Leviatã. Fizeram-se frutos. Brutos escamosos de barbatanas laminosas. Afã. Nadadores de cores pulsantes. Movimentar errante. Entrecruzante esbarrar. E Deus gostou. Bom que era. E ao céu aves deu. Como espelho que reverbera. Vermelho voar de asas. Relevo furta-cor. Dançando de azul o alvo penar. E escorrer. Enternecer. Cantar. Vulto de voz estridente, estrito entoar. E o arremesso. O rasante. Arremate. Pouso garboso de inflexão exata. Abstrata devoção. Houve de-noite e de-dia. Assim foi. O quinto dia.

          Pulular. Arrastar terra de pata pestanejar. Polivalente. Rente ao chão ergueram-se animais. Caminhar. Mais que deslizar: galopar. Dominar a caça, fugir da ameaça em instinto pensar. Multiplicação. Macho e fêmea em amorosa procriação. Cópula dourada. Lépido estertor de pata balançando em estridente pelejar. Perpetuar. Pêlos, peles e plumas. Cascos. Corpos diversifigurados. Rede perene de exato equilibrar. Pluriflautear de vida vaguear. Harmonia: riso e juízo. Perfeita sinfonia. Paraíso. Houve de-noite e de-dia. Assim foi. O sexto dia.

          Descanso de Deus. Que a tudo fez e viu-se feliz. Contemplando a obra santifi­cou-a, deitou-se e descansou. Maravilhado, ilhado, orgulhoso. Houve de-noite e de-dia. Assim foi. O sétimo dia.

          E em qualquer um dos dias, dia de tédio ou distração, criou Deus o homem... Mas depois se arrependeu.

 

 

MADEIRA, PREGO E VOZ

 

          A madeira é quase negra e suas fibras saltam num emaranhado opaco e labirín­tico. Pesada, mal se concebe a força necessária para carregá-la. Mas é madeira pobre, sua matéria é a dor, o homem, talvez o mal ou a redenção. Está cravada em solo pe­dregoso, bem fundo, chão árido, que é para o vento não derrubá-la. Alguns fiapos in­sinuam que foi tratada por mau carpinteiro, talvez trabalhada às pressas. Uma farpa mais agressiva pode ferir a carne descuidada. Mas parece que ninguém está atento para esses detalhes. Afinal, essa madeira é produto de um homem.

          O prego enferrujado tem sua cabeça plana; em mau ferro moldada, torta em suas laterais, é quase quadrada no que se intentou circular. O corpo do prego é alongado, quase fino na ponta, mas certamente exigiu força extrema, provavelmente de braço impiedoso, para furar a madeira. Uma limalha ainda presa ao prego amedronta quem o manuseia, se o segurasse de forma imprópria poderia se ferir. Mas seria furo pequeno de pouco sangue vazar, nada que despertasse a atenção de alguém. O prego é surdo no seu uso. Não sabe o que faz. Mas foi feito por um homem.

          A voz, não é grito, não é tormento, forma-se lenta na cava escura do pulmão. Forma-se de ar arrebanhado, recolhido mínimo para o esforço último da lamentação. Percorre aturdida esgueirando-se no vermelho vivo da garganta, ressoa na boca, seca o céu. Quando sai, conformada pelos lábios, língua, dentes, é grave e frágil e única como jamais houve. Voz sedenta de quem se sabe exaurido. Voz implume que se dilui no instante mesmo que se pronuncia, ainda viva, mastigada de palavras. Voz que não sabe a quem dizer, mas que mesmo assim diz, incólume de humanidade: Homens, ho­mens, por que me abandonastes?

 

 

AS PROFECIAS

 

          O lago era noite e brisa. A brisa era frio e estrelas. E as estrelas flutuavam, estilhaços de luz. Do alto, a lua contemplava-se inteira, refletida nas águas calmas do que eram sombras e silêncio.

          De uma clareira às margens do lago tentava avistar o lado oposto. Perto de mim, a fogueira crepitando luz. Além, o farfalhar negro das árvores. Meio-círculo de pedras rodeava, de cada lado, o que não eram árvores, à frente, o que não era eu, vidente.

          Súbito, o  que era brisa tornou-se vento; o que eram águas calmas, ondas; nas sombras, um completo escurecimento e a fogueira – brasa. Um relâmpago mudo acendeu o horizonte enquanto nuvens navegavam a esmo como navegam olhos grávidos de desespero. Do outro extremo o vento me gritou pensamentos povoados de esperanças.

          O futuro, face lúcida da loucura, pairou sobre minha consciência como barco que navega solitário, sem ter quem o remasse. E se esse barco, que vem lento ao longe, me trouxesse palavras, talvez elas me contassem a história que sonhei possível, uma realidade elaborada durante séculos, ou talvez até mesmo a revelação de todas as profecias, como se o Mistério se encantasse em máquina do mundo ou arca da aliança e revelasse a verdade que não cabe na razão.

          Mas o barco nada disse. Veio vindo de dentro das árvores, da outra margem do lago, trazendo em seu corpo oco uma mancha branca, leve como lírio. Veio vindo, vestido de escuridão, sem braço ou remo, soprado pelo vento, feito berço ou caixão. Quando pude puxá-lo da água, a forma branca desnudou-se em toda sua cegueira. Minhas mãos ergueram mantos, véus brancos em retalhos. E cada véu despetalado, em dança de desastre, revelou o que escondia sob sua forma ovalada feito ventre de mulher: nada!

 

 

FÁBULA

 

semelhante a um jovem que jamais refletiu em um lago, inapreendido em sua aparência, não visto por nenhuma superfície especular, e que, sem se privar de pensar na forma desconhecida de sua própria imagem, deparou-se, como quem se depara com a máquina do mundo, com uma casa de espelhos, estando ao meio, como o centro de todos os olhos refletidos por paredes deformadoras e que o mostravam, seus próprios olhos, aos pedaços, por toda a extensão circular da esfera, através de alternâncias de formas, que em sutis gradações de gordo a magro, alto a baixo, belo a feio, representavam seu corpo ainda impúbere em tantas versões como as que intentasse encontrar em algum ponto eqüidistante de onde estava se vendo, sem que, no entanto, aceitasse que alguma daquelas formas, sem deixar de lhe pertencer, pudesse ser a sua, a ponto de lhe parecer, após muito se olhar, que sabia de si mais do que a si pertencia, embora nada compreendesse que antes não desconhecesse sobre em que é semelhante a

 

 

ÍCARO

 

          Na gaveta do lado direito tenho guardada uma navalha velha, sedenta de sonho, enferrujada de espera, que meu pai me deixou. Talvez ela fosse viva, mas ao abri-la vejo meu reflexo e sei seu destino, o destino de tudo que aspira ao belo, ao eterno. Voar. Em devaneios fabrico asas de seu corte vivo, navalha cravada lenta e profunda­mente no que é braço servil, à força de muito desejar, de tudo esquecer. Púrpura, leve, líquida asa que mal sabe farfalhar, mas que escorreria vida afora na intenção de voar.

          E se voasse, voaria para o vão da janela que encarcera o céu – já desfeita a ingrata impressão de que o mundo me domina. Sei que se as nuvens me gritassem: “salvação!”, provavelmente não as ouviria, pois já estaria longe, lançado ao abismo, su­bindo, pairando, desenhando um vôo sem esforço rumo ao sol. Posso já ver atrás de mim o rastro de vida tingindo de adeus o corpo quedo ao chão. Mas não me importo, já não o quero, não preciso mais dele, sou livre... Até que de súbito alguém me toca o ombro com papéis importantes e eu, do susto me reatualizando, olho desanimado.

 

 

O GRITO

 

          É ainda uma vontade.

          Presa aqui na garganta, ainda fumaça. Que arranha e desfia. Que impulsiona à tosse e se engasga ao engolir. É ainda a respiração que cava um espaço entre a gargan­ta estreita. Que circula. Alimenta e dissolve. Vermelhidão, ânsia, entrave. É ainda uma angústia remoída que se dilata e se mescla e, ao fluir, contamina, esgarça, explode o pulmão ávido de ar, grávido de grito. É ainda a boca que se abre em elipse, gruta abrupta, e espera atônita enquanto não vem – mas ela sabe que virá. É ainda o punho que se fecha, o sangue que se desembaraça, a cabeça que inclina, aturdida – mas ainda não veio. E só virá quando a raiva criar fôlego insustentável. Quando os olhos, ig­nóbeis, fugirem da órbita. Quando o corpo, convulso, quebrar-se em queda.

          A vontade só é grande quando já foi extinta.

          E a dor se ensurdece: sua voz acordará as crianças, as luzes se acendendo na madrugada... Os nervos se incham, o desespero lateja, as mãos congelam o espanto – está prestes a surgir. Vísceral e retorcido, crânio esmagado, nasce como um ruído, percorre o esôfago, ecoa na garganta, reverbera na boca e começa a escorrer por entre os dentes, vaza pelos lábios e inunda o corpo. É um grito. Cavernoso, grave, bramido infindo que sobrevoa a consciência, incita à revolta, revoa. Que se intensifica. Frágil e interno, extenso de propagação. É um grito. Recurvo e disforme, dispara assombros, reconvoca a voz, está quase livre, mas ainda não vive, talvez nunca viverá, pois sua matéria é a morte. Seu destino é a morte.

          Mas é um grito. É ainda uma vontade.

 

 

ÓPTICA

O Olho

 

Receptáculo da luz, deflagrador de sua devoração e um dos órgãos responsáveis pela visão, o olho aloja-se nas arcadas orbitárias e se move por meio de músculos controlados por nervos cranianos. O globo ocular é formado pela esclerótica, tecido resistente, fibroso e branco; pela caróide, envoltório que abriga os vasos sangüíneos e pela retina, membrana nervosa que engole a luz, exceto em seu ponto cego.

            Córnea, Pupila, Íris, Cristalino, Humor Aquoso e Vítreo conformam o olho.

A Luz

 

Radiação eletromagnética, emitida por corpos luminosos, que produz sensação visual. São irmãos da luz os Raios X, gama, ultravioleta e infra-vermelho, embora vibrem em outra freqüência. O sol, as estrelas, o relâmpago, a combustão de algumas substâncias, a lâmpada elétrica, a vela, o vaga-lume, são fontes de luz. A luz tem cor e velocidade, reflete, refrata, difunde, dispersa, ilumina, ilude e alucina. Mas não brilha sem os olhos.

Imagem

 

É uma representação de um objeto pela inferência da luz. Os prolongamentos de raios refletidos por espelhos, esses reais duplicadores da irrealidade, são os tentáculos da imagem. Paralelismo, simetria e reversão são os deuses trinos, criadores do mundo inexistente. O demônio dessa teologia virtual não recebe nome, embora o evoquem como caos ou ilusão, mas seus objetivos nunca foram o mal ou a destruição; é devoto especular da beleza e da confusão.

Miragem

 

Imagem formada no horizonte devido ao nível de densidade das regiões próximas ao solo quente do deserto que incita a luz a voltar-se sobre si. Sua ação narcísica cria a ilusão úmida, brilhante e especular de um lago. Nos mares também ocorrem miragens, mas devido ao caráter simétrico da densidade das regiões próximas à água fria do oceano, a imagem se lança, sedenta, ao céu.

Arco-íris

 

Coroa celeste da aurora e do anoitecer, o arco-íris é tecido por gotículas de chuva entrelaçadas pela luz do sol, que se refrata e se decompõe. Presa ainda na malha úmida, reflete-se e novamente se refrata, explodindo em cores angulares, vôo de flecha, rastro lancinante para os olhos táteis da imaginação. Determinado por um conjunto de circunstâncias de recorrência intermitente, o arco-íris foi considerado, por muitos séculos, como um sinal dos céus. Mas a incoerência de um mesmo sinal para chuvas diferentes possibilitou à ciência definir o acaso.

Os homens

 

Sob o reinado de Suppiluliuma, viveu um guerreiro, de nome Zumatuliya, que de olhos fechados podia ver qualquer região que quisesse, perto ou distante. Concentrando-se até chegar próximo ao primeiro sono, momento em que se aclarava sua visão, o guerreiro relatava o que sete vezes setenta mil passos não podiam ver. Protegido do rei, influiu diretamente nas estratégias que propiciaram a formação do Império Hitita, que conquistou, entre oito pequenos reinos, Mitani e Kadesh. Zumatuliya morreu no ano de 1353 a.C., assassinado pelo sacerdote do Zigurate de Zhur, sem que as razões de sua excedente visão fossem estudadas. No mesmo ano, Suppiluliuma recebeu uma surpreendente mensagem de Anquesenâmon, viúva de Tutancâmon, mumificado aos 18 anos de idade. Sem a visão do guerreiro hitita, Suppiluliuma hesitou, hesitou, e por fim entregou seu filho para o casamento com a morte egípcia.

           Por volta de 1100 a.C., um circo chinês, nas margens do Yan-tse, apresentava aos camponeses atrações que reverenciavam seus ancestrais San, sem, no entanto, desrespeitar os Tsou, que haviam deposto Di-chin e sua sádica companheira Da-ji, hábil inventora de instrumentos de tortura. Entre as atrações, destacavam-se duas: a leitura do futuro através do osso oracular e a surpreendente visão de Tchu-hua, da região de Tcha. Quando todas as tochas e vasos de luz eram apagados, o chinês descrevia os mais variados objetos erguidos pela trevosa assistência. Sem jamais errar ou se negar a descrever o que o mostrassem, por mais orgânicos que fossem os desafios propostos pelos incrédulos, Tchu nunca emitiu uma palavra que explicasse ou descrevesse sua visão incomum. Caçador noturno de grandes serpentes, conhecidas na época pelo nome genérico de dragão, morreu envenenado por dois longos dentes, sem que ninguém mencionasse a palavra descuido ou acidente. Tchu-hua entrou para a história como suicida e o motivo do desatino deu origem a dezenas de mitos recontados por séculos.

            Em 1522, A. Pigafetta, em seu diário que narra a primeira viagem ao redor do mundo, cita, em uma nota, o caso do extraordinário homem que, entre os tehuelches, “possuía olhos que viam mais longe que uma luneta”. A ele foi atribuído o conhecimento dos astros por parte deste povo primitivo, também a expansão de suas fronteiras e a invenção da torre de observação. Acostumado a olhar para além dos horizontes, desaprendeu a enxergar os homens, morrendo isolado no alto da torre mais alta, sem que ninguém soubesse o que viam os olhos que estudavam dia e noite o espaço do céu.

            Inúmeros outros casos de distúrbio da visão são encontrados ao longo da história, desde os mais raros, como a visão microscópica, até os mais comuns, como a cegueira, o daltonismo ou a visão em tons de cinza. A visão do futuro, do passado ou de mundos paralelos se encaixa nos casos particulares, classificados como visionários ou sobrenaturais, sem nenhum interesse, por razões óbvias, à ciência. À óptica, ramo da ciência que estuda e estabelece as leis relativas às radiações luminosas e aos fenômenos da visão, importam os casos recorrentes e aplicáveis à maioria dos homens, suscetíveis à atribuição de leis, teorias, experiências e explicações. Pelo caráter deficitário, em termos quantitativos, e especulatório, pela ineficiência das provas, as exceções ficam restritas a um ramo da ciência ainda em desenvolvimento, devido ao imensurável e ainda inconcluso trabalho de catalogação da mentira, que dissidentes do estudo científico, adeptos de manifestações de caráter demiúrgico, conceituam, evidentemente sem argumentos lógicos, analógicos ou analíticos, como invenção.

Esse ramo da ciência, ainda em desenvolvimento, chama-se Ficção.

 

 

Contato: roalmeida@uol.com.br

 

Posfácio

 

        Há dois pontos que fazem dos poemas de Rogério de Almeida uma unidade sólida e flexível. Um deles diz a respeito da qualidade de sua voz, uma voz de vigor incansável, que incorpora e leva adiante desde a estrutura difícil do poema narrativo até experiências com formas variadas. O outro é a fixação da referência à luz, que tem paralelos generosos com a luz como Dante a compreendia em seu intelecto, a luz tripartida em manifestações, da mais puramente física às correspondências com inteligência e amor. Em Almenara podemos perceber uma carreira poética em perspectiva, como fica evidente para quem lê poemas que oscilam entre um jorro violento de imagens e certa serenidade construtiva: é precisamente esse o caminho da sua poesia.

 

DIRCEU VILLA

 

 

© by Badaró

1999