ALMENARA
Rogério de Almeida Almenara foi
publicado em junho de 1999, com uma tiragem de pouco menos de cem exemplares,
esgotando-se na própria semana do lançamento, pela Série Badaró, que foi fundada
e existiu para publicar livros de novos autores. Como o número de
interessados em conhecer o livro não se esgotou com os exemplares publicados
e não há previsão de relançamento, que a Internet abrigue os 17 poemas que
compõem o livro, possibilitando a leitura dos interessados e dos que
porventura aportarem nesta página.
Contato:
roalmeida@uol.com.br |
Sumário |
Oração À
Nossa Senhora do Caos
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BRASÃO
Eu escrevo:
Construo meu castelo.
Metal jalne,
Fundo sable,
Pele veiro em vento de esmaltes.
Eu escrevo:
Teço minha torre
Como se de tão alta se visse o futuro.
Nela sou eu quem ilumina,
Farol de Alexandria,
Almenara.
Como se talhada em pergaminho
A palavra se tornasse viva,
Livre como o que voa, ave sonora,
Coroa esculpida em timbre eterno.
Elmo em movimento de luta:
Bruta, a máscara emoldura a alma.
As armas
E os leões assinalados,
Rompentes como os templários.
Eu escrevo:
Corpo morto em campo santo,
Meu manto ladeando os braços:
Carne tornada aço.
A lança em arremesso largo:
Que não se perpetue em sangue
O sêmen da criação.
A minha vitória sem árvore genealógica.
Eu escrevo:
Desvendo desertos,
Caminho como quem se perde, persiste,
Como quem cede, eterna sede
De conquista, como quem pede, resiste,
Insiste no que aos olhos é além da vista.
Na torre o fogo é arauto:
Sou a morte, osso da vida,
Espada rasgando a carne
Como quem corta de dentro do corpo
O corpo vivo do corpo morto,
Escudo trincado de trevas.
Eu escrevo:
Prego a cruz em minha pele
Por proteção.
Nem porque casto
Castigo o coração.
Eu escrevo:
Escrevo para mim,
Porque em mim nascem os nomes.
Escrevo para Deus,
Para que Deus não se envergonhe
Dos homens.
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Os homens mais sábios do reino
Ousaram empreender a tarefa impossível.
Desocuparam-se da moral, da política e da religião;
Sobrepuseram-se à natureza, à sociedade e à arte;
Reservaram a metafísica aos ficcionistas;
Aboliram da filosofia o conhecimento e suas teorias
E elegeram o científico poder da observação
Como o único guia da grandiosa tarefa.
Primeiro, a Torre. Construíram-na os escravos
De inúmeras gerações, sem jamais conhecer o motivo.
Altiva, tocava as nuvens.
A base, mil homens não poderiam abraçá-la.
A cúpula como uma inconsultável biblioteca.
Não havia como subi-la em uma vida,
Mas os sábios já estavam lá em cima.
Depois, o labirinto. Infinitos escravos
Ergueram seus muros sem jamais vislumbrar
A entrada ou a saída; não se sabe se há.
Quando as pedras acabaram,
Retalhadas todas as montanhas,
E as florestas decapitadas
Não verteram mais madeiras,
Os homens usaram os ossos de outros homens
E assim se construíram seus sete mil caminhos.
Em cada encruzilhada ordenaram os sábios
Que se encadeassem obstáculos.
Leões e tigres, espelhos e abismos,
Rochas, relógios, sereias e serpentes,
Torniquetes, ciclopes, mares e pântanos,
Zigurates e forcas, fogueiras.
Mas também artifícios de fuga,
Como uma corda, uma pedra, um cajado,
Gravetos de fabricar fogo, facas, machados.
E de cada homem se esperou, confiança cega dos sábios,
A inteligência voraz e a vontade de vida.
E séculos sobre séculos, sábios sucederam sábios.
Do alto da torre anotavam em blocos de pedra, papiros,
Pergaminhos, papéis, livros,
Os resultados do interminável trabalho:
Proposições, sentenças, assertivas;
Silogismos elaborados, comparavam premissas,
Invertiam argumentos, concluíam, desmistificavam.
Solipsismo, panteísmo, doutrinismos,
Prolegômenos apoteóticos pontoando a investigação
Dos caminhos e conhecimentos do homem.
E hora após hora, homens enterraram homens.
De dentro do labirinto suportavam suas vidas
Desafiando o destino a cada desvio de caminho.
E esmurraram muralhas, rastejaram em masmorras,
Mergulharam em misérias sem achar as chaves da prisão.
E enquanto alguns caçavam tigres
Outros tombavam em abismos,
E se varões envelheceram em espelhos
Houve velhos que venceram serpentes.
E de tudo, nada escapou às penas dos sábios.
E quando, finalmente concluso o trabalho,
Os sábios comemoram a descoberta final –
Que cada homem contém em si vários homens
Que se sucedem e se repetem sem jamais se unir
Pois para o equilíbrio da raça
Um homem nunca é sempre o mesmo homem –
Um se revolta, como se do labirinto intuísse a Torre,
E, machado contra o muro,
Instaura solitário a demolição.
Os sábios não se assustam com a insurreição,
Sabem que o homem é sempre um outro homem
E esperam serenos o infalível cansaço que silencia machados.
Mas o momento não vem.
Os tempos reúnem-se no tempo
E machados, martelos e pedras repetem o gesto
Na coincidência única dos destinos
E enquanto todos os homens são um só homem
O labirinto rui e, por fim,
Como toda vontade que se torna verdade,
Desaba.
Mas a Torre, encolhida em sua altura,
Ainda está por tombar.
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METRÔ
Visita Inferiora Terrae
Rectificando Invenies
Occultum
Lapidem
São
Paulo
Terra
mágica de mágicos navegantes
Cidade
noite
Cidade
nuvem
Cidade
outono
Cidade
mar aberto de tempestades esguias e ventos flâmulos
Cidade
arredia de luzes parcas e parcos sonhos
Cidade
mundo
Um
anjo negro de couro vestido
Benzendo
a cidade
Brotado
do asfalto
Neon
Bares
sujos
Boates
bordéis
Bisturis
enfáticos lapidando prazer
A
puta sai do lado escuro da rua
E
vai aonde há luz
Carros
param
Buzinas
Barulho
constante
Constante
ronronar de camas e grades
Hospícios
e favelas
Velas
no cemitério abandonado
Debaixo
da terra
A
morte silencia
Debaixo
da terra
O
mundo vai rápido
Passageiro
corre catraca
Entra
trem
Vários
vagões nos vagalhões férricos
Trem
de velocidade vasta
Túneis
de luzes fracas
Multidão
Olhares
entrecruzantes
Passos
indelineáveis
A
dança de corpos frouxos balançantes
Beliscando
os falos metálicos de apoio às mãos
Vão
Chão
Escuridão
Eletricidade
constante encavalada em trilhos tétricos
Plataforma
velada por remotos olhos vítreos
Imensidão
Gente
que vai vento na cara e varizes lúgubres
Seus
passos seus espaços
Confusão
O
sinal toca
O
homem corre
Sua
perna pende presa
Com
esforço se solta
As
portas se fecham
Parte
o trem
Carregando
vagando andando indo ando
Esperando
A
cada estação
Repetição
E
Retoma
E
reparte
E
repete
E
retorna
E
chega
E
sai
E
vai e vem
E
trem e trem e trem
E
não tem
Ninguém
Que
vê
Que
eu vou
Entre
prédios e tédios e homens de terno
Entre
pombas e bombas e tempos dispersos
Entre
a vida e a morte e o calo no pé
Uma
velha se abaixa e pega a moeda
Ergue-se
rindo
Óleo da máquina
Que move o mundo
Arco nulo sujo
Arremessando flechas
A alvos turvos
Celulose
Celulite
Servidão
Cota de coice que se pode distribuir
Ilusão pré-fabricada
Escravidão não anunciada
Pernas que se podem seduzir
Na amplidão da sombra
Que sonda o abissal
Um homem abre a carteira
E a morte lhe sorri
Umbigo
da cidade
A
catedral
Bela
suja nunca
De
portas abertas
Desperta
solidão
Enrustida
A
fé perdida
Tentação
Cristo
passeia
Entre
mercadores
Anônimos
Destruição
A
morte arrebanha
Deus
separa
Um
cinema fecha as portas
Por
duas horas
Para
a lavagem do esperma
A
praça
O
largo
Umbigo
não
O
cu
Urubu
em céu cinza
Azul
Aleijado
de perna encolhida
Sorri
pra ela
E
a moeda tilinta
Estação
Sé
Desembarquem
pelo lado esquerdo do trem
Mil
volts
Cavalo
vapor
Motor
máquina
Trilhos
tumor
Como
câncer disposto a correr a cidade
Em
sangue
Nada
acalma
A
fúria de ferro
Que
entre o prático e o belo
Desencrava
o inferno
Um
corpo é recolhido
Inoportuno
esmagado
Atraso
do trem
Descarrilha
explode espatifa
Recolhe
engole desperdiça
Corrente
elétrica e limite da vida
O
metrô é vivo como a morte armadurada
Amargura
de cidade desastrada
Que
imita o homem como cobra domada
No
escuro que silencia
Um
morcego voa raso
Voa
em névoa renovada
O
sibilo solitário do trem
Estanca
pára
Recolhe
Seu
rastro é silêncio que principia
Noite
que acaricia
Ciciar
Enquanto
os homens dormem
O
lobo caça
Seu
uivo é espelho
Espelha
fumaça
Uma
estrela cai como choro
Na
cidade enraivecida
E
a vida ergue-se morta
Das
mudas portas do cemitério
Sem
espreita
Sem
mistério
O
sol arrebenta
Em
luz
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VASTADOR
Deserto ou Oceano:
Muda-se o sono
O sonho é sempre engano
Deserto e Oceano:
Na vastidão de trevas
Um círculo de luz
Refúgio
Paisagem devastada
Vestes de areia
Velam pedras machucadas
O solo batiza-se de sangue
Restos de mortes
No dorso do mundo
Um grito negro rompe o céu
Desata em queda rápida
A máquina de produzir nadas
E em suas esferas
A vaidade e a solidão
Entretecem-se
Secretas e ingratas
Deserto no Oceano
Descanso
Manto de mares
Nuvens nos mastros dos barcos
Lâminas de aço
Estilhaçam rios de vidro
Não é de sangue o vermelho do inferno
Insônia e calafrios
Os mitos
Embriagados encravados incrédulos no túmulo
marítimo
São ainda um ritmo único
Dilúvio de lemes
Veias em tempestade de vozes
Os ossos recordam
Suor nostálgico
Deserto e Oceano:
Os demônios se aquecem
No mesmo fogo
Que os anjos
Deserto ou Oceano:
Muda-se o sono
O sonho é sempre engano
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Recorda,
ó Memória, os jardins do palácio
De
onde os pensamentos projetavam torres
Que
tocariam o céu sem ferir os deuses
E
por mim o sol não as tombaria em sombras.
Percorre,
ó Memória, os caminhos do sonho
Quando
um deus havia em mim menino
E
celebrávamos alegres o poder sobre o destino
A
quem nem queda ou castigo semeasse o medo.
Mas
eia! Nas trevas o tempo reavivou os vermes
Que
róem da espada o ferro e a força
A
deixá-la frágil ao que seja eterno,
Lâmina
cravada na pedra do esquecimento.
Mas
eia! Se não há espada que eleve os pensamentos,
Que
não haja torres nem sonhos nem deuses.
Que
as sombras do tempo escureçam o palácio
E
que morra o jardim a quem não soube vivê-lo!
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A
DOR
A
dor olhou-me nos olhos
E
fez-me espelho do mal em mim.
Glórias?
Riquezas? A vida oferecida
Em
sonhos por outros sonhados?
Prazeres
e pecados povoando a alma
Que
almejou ao eterno jardim.
A
dor tocou-me nos ombros
E
atirou-me ao abismo da solidão.
Amigos?
Mulheres? Noites iluminadas
Por
pernas, bebidas e beijos?
Dívidas
e desejos devastando a alma
Ancorada
em profunda escuridão.
A
dor beijou-me na boca
E
sorveu-me o ser pela raiz.
Culpa?
Pesadelo? Promessas pequenas
Que
se perdem na amplitude do perdão?
Doçura
e tentação torturando a alma
Até
que a morte me acorde – de tudo que fiz.
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ÉBANO-VOZ
POEMA-ALMA
Estrondo como cair de árvore
Em arremedo o arrebol
Se era azul o céu
Minha alma pirilampo
Como pilhéria em festa de numes
Dardejando lumes
Dir-se-ia gumes de sol
E se era alegria
Convulsão ou fantasia
De súbito enfeitiçou
Zunir de vento em fresta fábula
A mata toda em disforme retumbar trovejou
Nada trinou que não tremeluzisse
Assim é que se existe
Assim eu nasci
Como o fluir da fina névoa
Em farfalho de sombras
Uma árvore fadada à queda
Ébano
Concebo-me em extremos
A pálpebra pesada
Possuindo pesadelos
Seiva bruta
Abrupta emanação
Sangue e sombra
Raiz
Sonho é solidão
Olhos comprimidos
Não ao longe podem ver
Olham para dentro
Espasmos
Espaços
Tormentos
Fogueira
Ora brasa
Ora alastramento
E a alma aflora
De forma misteriosa
Espécie de luz própria
Uma alma de sombra
Escura escura
Transbordando brilho
E as mãos caídas
Roçantes
Rubras e frias
De ossos esvoaçantes
Espera um instante
Quero uma gota de ódio que ainda me faça viver
Um passo
E o precipício
Assim é que se vive
Exilado em deserto
Desolado ávido
Cego e vasto sem respaldo
Condenado e livre
Feito um grito ecoando infinito
Inocência
Da fissura
Não se vê o fundo
Existe milagre?
Sem foice embora afiada
Vem a face negra da amada
Eu queria uma poesia que fosse
A pura transubstanciação do ser
Algo assim como
A sombra da nuvem descobrindo a manhã
Festa de fábulas farfalhantes
No conhecer do tudo-novo-sem-antes
Difícil de conseguir
Pétalas murchas
Em vento negro
Alçar ao céu
Feito anjo
Paz
Na voz há qualquer coisa que não se perde
Se chora
O mau espírito vai embora
A voz
Uma semente voada pelo vento
Serena e sozinha
Renovando a vida
Eu sou sem corpo
Tronco morto no mundo
Ébano
O sol nos meus olhos
Fechando meus olhos
Olhos noturnos
Ebâneos olhos
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AMPULLASPECULUM
Quando à noite no escuro sozinho contra tudo me
vigio
Na esperança de ver-me todo meu ser além-semblante
Que transparente voa ao rente véu que segrega a
vida
Do invisível segredo vendado que não vejo
Vejo-me verme a rastejar através do vulto
Oculto entre os vãos e nãos do rosto
Estampado em sangue vermelho
Ainda que não vendo
Vejo-me a ver-me
Olho da alma
No espelho
Do eu
No espelho
Olho da alma
Vejo-me a ver-me
Ainda que não vendo
Estampado em sangue vermelho
Oculto entre os vãos e nãos do rosto
Vejo-me verme a rastejar através do vulto
Do invisível segredo vendado que não vejo
Que transparente voa ao rente véu que segrega a
vida
Na esperança de ver-me todo meu ser além-semblante
Quando à noite no escuro sozinho contra tudo me
vigio
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OS PALÁCIOS DO EXÍLIO
Casas
e carros correm como asas
Águas
levam glórias e riquezas
E
voa a vida como folha ao vento
Não
sou um palhaço
Não
sou uma linda mulher
O
que fazer neste palácio de sofrimentos?
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ORAÇÃO À NOSSA SENHORA DO CAOS
Nossa
Senhora do Caos
Dai-me
cor e coragem
Curai-me
Dai-me
cruz e corpo
Coroai-me
Dai-me
fé e fome
Forçai-me
Dai-me
flor e febre
Fortificai-me
Nossa
Senhora do Caos
Dai-me
Deus e dinheiro
Divagai-me
Dai-me
dor e dúvida
Destinai-me
Dai-me
ode e ócio
Ocultai-me
Dai-me
o que és e esperança
Esperai-me
Nossa
Senhora do Caos
Dai-me
céu e sexo
Serenai-me
Dai-me
sol e sombra
Sondai-me
Dai-me
som e sono
Silenciai-me
Dai-me
são e sangue
Sonhai-me
Nossa
Senhora do Caos
Dai-me
léu e leme
Lagrimai-me
Dai-me
lã e lava
Lavai-me
Dai-me
lua e luta
Livrai-me
Dai-me
luz e luto
Levai-me
Nossa
Senhora do Caos
Dai-me
uso e útero
Unificai-me
Dai-me
nó e nuvem
Nomeai-me
Dai-me
voz e vento
Velai-me
Dai-me
véu e visão
Visitai-me
Nossa
Senhora do Caos
Dai-me
jus e jogo
Julgai-me
Dai-me
tez e tino
Tocai-me
Dai-me
rum e rumo
Ressuscitai-me
Dai-me
ar e ânimo
Amai-me
Nossa
Senhora do Caos
Dai-me
mel e medo
Multiplicai-me
Dai-me
mão e morte
Musicai-me
Dai-me
pão e pena
Purificai-me
Dai-me
paz e paciência
Perdoai-me
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BÍBLIA BOBA
Caos. Silêncio escuro. Ausência. Abismo circunfluente. Pré-nada.
Proêmio, preâmbulo, prelúdio. Deus pendente em vácuo viscoso evidencia.
Dormência. Dormitude. Infinito pendular. Zero. Oclusão eternal. Latência incólume.
Gérmen. Flutuação. Até que. Súbito. Rápido. Zás. Bum. Acorda Deus explode universo. Florir. Unir. Começar.
O
começo do mundo. No princípio criou Deus o céu e a terra. Céu, sibilante,
similar, envolteou a terra em circunfechar. Algazarra. Terra, inválida, vazia,
em nada vasculhada, viscerou. Amálgama. E tudo-duo em trevas trovejantes
tartamudeou. Escuso escurejar. Devassidão. Haja luz. E luz se fez.
Clariclareou. Luciluzente. Brilho alvado. Brancoso. Lucescente. E Deus
sentiu-se contente. Alumiado. Perene alumbrar. E Noite foi como se chamou as
trevas. Dividida. Dissentida. E Dia foi como se chamou a luz. Lume. Éter.
Divisão. Houve de-noite e de-dia. Assim foi. O primeiro dia.
Água. Liqüifluente alagar de terra-tudo, terra-mundo. Alastramento.
Brotar de lágrimas. Aguar. Deus flutuante boiado apoiado se fazendo molhar.
Suor de lidador. Laboramento. Mergulhitude mergulhidão. Deus indo lindo, na
fluidez pacífico, aventando o navegar. Auscultando. Criação. Oceano impetuoso.
Ondaveloz. Marulho marinho murmúrio do mar. Mareante. Ou calmaria de marasmar.
Maré baixa. Anda-onda de amansar. Mansidão. Caminhar tranqüilo de Deus
solitário lúdico levitando pela sobreface aqualanguilúbrica do mar. Revira e
revolta e volta a respirar. Lufa-lufa de exímio contentar. Houve de-noite e
de-dia. Assim foi. O segundo dia.
Plantação. Terra arada. Inseminação. Relva rente em deleite. Ervaçal.
Adubo aduno. Advento. Vento-alastrar. Folia de folhas em resfolegar. Floração.
Fruto e semente. Fibrilação. Árvore-carne. Copa e raiz. Deus que a tudo fez
viu-se feliz. Florifestejou. E roseiras espinhudas fez que não houve quem as
tocasse. Nem larva lesma verme que em sombras as sugassem. Sagração. De graças
o rés verdificou. Realização. E tronco truncado em cruz cascado foi ao alto.
Devotamento. E retocar de aprumo e permeio. Arremate. Houve de-noite e de-dia.
Assim foi. O terceiro dia.
Sol. Pendido pendurado, puro ouro de luz carregado. Luzidio.
Amarelo-verminado. Escorregadio. Lustrino lustroso de gravitroante retumbar.
Leve livre longe. Insípido explanar. Dono do dia. Soberano no verão. Oposição:
Lua. Rainha nua de emprestado rebrilhar. Reflexão. Da noite noiva, do céu
servidão. Língua míngua mágoa. Melancolia estancada. Consternada de lágrimas
estreladas. Fulguraz. Envolteada de voláteis constelações. Estrelas vivazes.
Cintilante cintilar. Fugazes como o desabrochar. E enquanto um nasce o outro
cai. Abandono no por detrás do mar. Sem beijo nem ensejo. Embora o desejo.
Embora revigore o distante entreolhar. Reiterante renovar. Absorto absconso
absoluto. O obstar. Houve de-noite e de-dia. Assim foi. O quarto dia.
Vida. No mar, entre frêmitos, fizeram-se peixes, viventes seres. Infantes, gigantes marinhos. Leviatã. Fizeram-se frutos. Brutos escamosos de barbatanas laminosas. Afã. Nadadores de cores pulsantes. Movimentar errante. Entrecruzante esbarrar. E Deus gostou. Bom que era. E ao céu aves deu. Como espelho que reverbera. Vermelho voar de asas. Relevo furta-cor. Dançando de azul o alvo penar. E escorrer. Enternecer. Cantar. Vulto de voz estridente, estrito entoar. E o arremesso. O rasante. Arremate. Pouso garboso de inflexão exata. Abstrata devoção. Houve de-noite e de-dia. Assim foi. O quinto dia.
Pulular. Arrastar terra de pata pestanejar. Polivalente. Rente ao chão
ergueram-se animais. Caminhar. Mais que deslizar: galopar. Dominar a caça,
fugir da ameaça em instinto pensar. Multiplicação. Macho e fêmea em amorosa
procriação. Cópula dourada. Lépido estertor de pata balançando em estridente
pelejar. Perpetuar. Pêlos, peles e plumas. Cascos. Corpos diversifigurados.
Rede perene de exato equilibrar. Pluriflautear de vida vaguear. Harmonia: riso
e juízo. Perfeita sinfonia. Paraíso. Houve de-noite e de-dia. Assim foi. O
sexto dia.
Descanso de Deus. Que a tudo fez e viu-se feliz. Contemplando a obra
santificou-a, deitou-se e descansou. Maravilhado, ilhado, orgulhoso. Houve
de-noite e de-dia. Assim foi. O sétimo dia.
E
em qualquer um dos dias, dia de tédio ou distração, criou Deus o homem... Mas
depois se arrependeu.
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MADEIRA, PREGO E VOZ
A
madeira é quase negra e suas fibras saltam num emaranhado opaco e labiríntico.
Pesada, mal se concebe a força necessária para carregá-la. Mas é madeira pobre,
sua matéria é a dor, o homem, talvez o mal ou a redenção. Está cravada em solo
pedregoso, bem fundo, chão árido, que é para o vento não derrubá-la. Alguns
fiapos insinuam que foi tratada por mau carpinteiro, talvez trabalhada às
pressas. Uma farpa mais agressiva pode ferir a carne descuidada. Mas parece que
ninguém está atento para esses detalhes. Afinal, essa madeira é produto de um
homem.
O
prego enferrujado tem sua cabeça plana; em mau ferro moldada, torta em suas
laterais, é quase quadrada no que se intentou circular. O corpo do prego é
alongado, quase fino na ponta, mas certamente exigiu força extrema,
provavelmente de braço impiedoso, para furar a madeira. Uma limalha ainda presa
ao prego amedronta quem o manuseia, se o segurasse de forma imprópria poderia
se ferir. Mas seria furo pequeno de pouco sangue vazar, nada que despertasse a
atenção de alguém. O prego é surdo no seu uso. Não sabe o que faz. Mas foi
feito por um homem.
A voz, não é grito, não é tormento, forma-se lenta na cava escura do pulmão. Forma-se de ar arrebanhado, recolhido mínimo para o esforço último da lamentação. Percorre aturdida esgueirando-se no vermelho vivo da garganta, ressoa na boca, seca o céu. Quando sai, conformada pelos lábios, língua, dentes, é grave e frágil e única como jamais houve. Voz sedenta de quem se sabe exaurido. Voz implume que se dilui no instante mesmo que se pronuncia, ainda viva, mastigada de palavras. Voz que não sabe a quem dizer, mas que mesmo assim diz, incólume de humanidade: Homens, homens, por que me abandonastes?
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AS PROFECIAS
O
lago era noite e brisa. A brisa era frio e estrelas. E as estrelas flutuavam,
estilhaços de luz. Do alto, a lua contemplava-se inteira, refletida nas águas calmas
do que eram sombras e silêncio.
De uma clareira às margens do lago tentava avistar o lado oposto. Perto
de mim, a fogueira crepitando luz. Além, o farfalhar negro das árvores.
Meio-círculo de pedras rodeava, de cada lado, o que não eram árvores, à frente,
o que não era eu, vidente.
Súbito, o que era brisa
tornou-se vento; o que eram águas calmas, ondas; nas sombras, um completo
escurecimento e a fogueira – brasa. Um relâmpago mudo acendeu o horizonte
enquanto nuvens navegavam a esmo como navegam olhos grávidos de desespero. Do
outro extremo o vento me gritou pensamentos povoados de esperanças.
O
futuro, face lúcida da loucura, pairou sobre minha consciência como barco que
navega solitário, sem ter quem o remasse. E se esse barco, que vem lento ao
longe, me trouxesse palavras, talvez elas me contassem a história que sonhei
possível, uma realidade elaborada durante séculos, ou talvez até mesmo a
revelação de todas as profecias, como se o Mistério se encantasse em máquina do
mundo ou arca da aliança e revelasse a verdade que não cabe na razão.
Mas o barco nada disse. Veio vindo de dentro das árvores, da outra
margem do lago, trazendo em seu corpo oco uma mancha branca, leve como lírio.
Veio vindo, vestido de escuridão, sem braço ou remo, soprado pelo vento, feito
berço ou caixão. Quando pude puxá-lo da água, a forma branca desnudou-se em
toda sua cegueira. Minhas mãos ergueram mantos, véus brancos em retalhos. E
cada véu despetalado, em dança de desastre, revelou o que escondia sob sua
forma ovalada feito ventre de mulher: nada!
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FÁBULA
semelhante a um jovem que jamais refletiu em um
lago, inapreendido em sua aparência, não visto por nenhuma superfície
especular, e que, sem se privar de pensar na forma desconhecida de sua própria
imagem, deparou-se, como quem se depara com a máquina do mundo, com uma casa de
espelhos, estando ao meio, como o centro de todos os olhos refletidos por
paredes deformadoras e que o mostravam, seus próprios olhos, aos pedaços, por
toda a extensão circular da esfera, através de alternâncias de formas, que em
sutis gradações de gordo a magro, alto a baixo, belo a feio, representavam seu
corpo ainda impúbere em tantas versões como as que intentasse encontrar em
algum ponto eqüidistante de onde estava se vendo, sem que, no entanto,
aceitasse que alguma daquelas formas, sem deixar de lhe pertencer, pudesse ser
a sua, a ponto de lhe parecer, após muito se olhar, que sabia de si mais do que
a si pertencia, embora nada compreendesse que antes não desconhecesse sobre em
que é semelhante a
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ÍCARO
Na gaveta do lado direito tenho guardada uma navalha velha, sedenta de
sonho, enferrujada de espera, que meu pai me deixou. Talvez ela fosse viva, mas
ao abri-la vejo meu reflexo e sei seu destino, o destino de tudo que aspira ao
belo, ao eterno. Voar. Em devaneios fabrico asas de seu corte vivo, navalha
cravada lenta e profundamente no que é braço servil, à força de muito desejar,
de tudo esquecer. Púrpura, leve, líquida asa que mal sabe farfalhar, mas que
escorreria vida afora na intenção de voar.
E
se voasse, voaria para o vão da janela que encarcera o céu – já desfeita a
ingrata impressão de que o mundo me domina. Sei que se as nuvens me gritassem:
“salvação!”, provavelmente não as ouviria, pois já estaria longe, lançado ao
abismo, subindo, pairando, desenhando um vôo sem esforço rumo ao sol. Posso já
ver atrás de mim o rastro de vida tingindo de adeus o corpo quedo ao chão. Mas
não me importo, já não o quero, não preciso mais dele, sou livre... Até que de
súbito alguém me toca o ombro com papéis importantes e eu, do susto me
reatualizando, olho desanimado.
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O GRITO
É
ainda uma vontade.
Presa aqui na garganta, ainda fumaça. Que arranha e desfia. Que impulsiona
à tosse e se engasga ao engolir. É ainda a respiração que cava um espaço entre
a garganta estreita. Que circula. Alimenta e dissolve. Vermelhidão, ânsia,
entrave. É ainda uma angústia remoída que se dilata e se mescla e, ao fluir,
contamina, esgarça, explode o pulmão ávido de ar, grávido de grito. É ainda a
boca que se abre em elipse, gruta abrupta, e espera atônita enquanto não vem –
mas ela sabe que virá. É ainda o punho que se fecha, o sangue que se
desembaraça, a cabeça que inclina, aturdida – mas ainda não veio. E só virá
quando a raiva criar fôlego insustentável. Quando os olhos, ignóbeis, fugirem
da órbita. Quando o corpo, convulso, quebrar-se em queda.
A
vontade só é grande quando já foi extinta.
E
a dor se ensurdece: sua voz acordará as crianças, as luzes se acendendo na
madrugada... Os nervos se incham, o desespero lateja, as mãos congelam o
espanto – está prestes a surgir. Vísceral e retorcido, crânio esmagado, nasce
como um ruído, percorre o esôfago, ecoa na garganta, reverbera na boca e começa
a escorrer por entre os dentes, vaza pelos lábios e inunda o corpo. É um grito.
Cavernoso, grave, bramido infindo que sobrevoa a consciência, incita à revolta,
revoa. Que se intensifica. Frágil e interno, extenso de propagação. É um grito.
Recurvo e disforme, dispara assombros, reconvoca a voz, está quase livre, mas
ainda não vive, talvez nunca viverá, pois sua matéria é a morte. Seu destino é
a morte.
Mas é um grito. É ainda uma vontade.
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ÓPTICA
Receptáculo da luz, deflagrador de
sua devoração e um dos órgãos responsáveis pela visão, o olho aloja-se nas
arcadas orbitárias e se move por meio de músculos controlados por nervos
cranianos. O globo ocular é formado pela esclerótica, tecido resistente,
fibroso e branco; pela caróide, envoltório que abriga os vasos sangüíneos e
pela retina, membrana nervosa que engole a luz, exceto em seu ponto cego.
Córnea, Pupila, Íris, Cristalino, Humor Aquoso e Vítreo conformam o olho.
Radiação eletromagnética, emitida
por corpos luminosos, que produz sensação visual. São irmãos da luz os Raios X,
gama, ultravioleta e infra-vermelho, embora vibrem em outra freqüência. O sol,
as estrelas, o relâmpago, a combustão de algumas substâncias, a lâmpada
elétrica, a vela, o vaga-lume, são fontes de luz. A luz tem cor e velocidade,
reflete, refrata, difunde, dispersa, ilumina, ilude e alucina. Mas não brilha
sem os olhos.
É uma representação de um objeto pela
inferência da luz. Os prolongamentos de raios refletidos por espelhos, esses
reais duplicadores da irrealidade, são os tentáculos da imagem. Paralelismo,
simetria e reversão são os deuses trinos, criadores do mundo inexistente. O
demônio dessa teologia virtual não recebe nome, embora o evoquem como caos ou
ilusão, mas seus objetivos nunca foram o mal ou a destruição; é devoto
especular da beleza e da confusão.
Imagem formada no horizonte devido
ao nível de densidade das regiões próximas ao solo quente do deserto que incita
a luz a voltar-se sobre si. Sua ação narcísica cria a ilusão úmida, brilhante e
especular de um lago. Nos mares também ocorrem miragens, mas devido ao caráter
simétrico da densidade das regiões próximas à água fria do oceano, a imagem se
lança, sedenta, ao céu.
Coroa celeste da aurora e do
anoitecer, o arco-íris é tecido por gotículas de chuva entrelaçadas pela luz do
sol, que se refrata e se decompõe. Presa ainda na malha úmida, reflete-se e
novamente se refrata, explodindo em cores angulares, vôo de flecha, rastro
lancinante para os olhos táteis da imaginação. Determinado por um conjunto de
circunstâncias de recorrência intermitente, o arco-íris foi considerado, por
muitos séculos, como um sinal dos céus. Mas a incoerência de um mesmo sinal
para chuvas diferentes possibilitou à ciência definir o acaso.
Sob o reinado de Suppiluliuma, viveu
um guerreiro, de nome Zumatuliya, que de olhos fechados podia ver qualquer
região que quisesse, perto ou distante. Concentrando-se até chegar próximo ao
primeiro sono, momento em que se aclarava sua visão, o guerreiro relatava o que
sete vezes setenta mil passos não podiam ver. Protegido do rei, influiu
diretamente nas estratégias que propiciaram a formação do Império Hitita, que
conquistou, entre oito pequenos reinos, Mitani e Kadesh. Zumatuliya morreu no
ano de 1353 a.C., assassinado pelo sacerdote do Zigurate de Zhur, sem que as
razões de sua excedente visão fossem estudadas. No mesmo ano, Suppiluliuma
recebeu uma surpreendente mensagem de Anquesenâmon, viúva de Tutancâmon,
mumificado aos 18 anos de idade. Sem a visão do guerreiro hitita, Suppiluliuma
hesitou, hesitou, e por fim entregou seu filho para o casamento com a morte
egípcia.
Por volta de 1100 a.C., um circo chinês, nas margens do Yan-tse, apresentava aos camponeses atrações que reverenciavam seus ancestrais San, sem, no entanto, desrespeitar os Tsou, que haviam deposto Di-chin e sua sádica companheira Da-ji, hábil inventora de instrumentos de tortura. Entre as atrações, destacavam-se duas: a leitura do futuro através do osso oracular e a surpreendente visão de Tchu-hua, da região de Tcha. Quando todas as tochas e vasos de luz eram apagados, o chinês descrevia os mais variados objetos erguidos pela trevosa assistência. Sem jamais errar ou se negar a descrever o que o mostrassem, por mais orgânicos que fossem os desafios propostos pelos incrédulos, Tchu nunca emitiu uma palavra que explicasse ou descrevesse sua visão incomum. Caçador noturno de grandes serpentes, conhecidas na época pelo nome genérico de dragão, morreu envenenado por dois longos dentes, sem que ninguém mencionasse a palavra descuido ou acidente. Tchu-hua entrou para a história como suicida e o motivo do desatino deu origem a dezenas de mitos recontados por séculos.
Em 1522, A. Pigafetta, em seu diário
que narra a primeira viagem ao redor do mundo, cita, em uma nota, o caso do
extraordinário homem que, entre os tehuelches, “possuía olhos que viam mais
longe que uma luneta”. A ele foi atribuído o conhecimento dos astros por parte
deste povo primitivo, também a expansão de suas fronteiras e a invenção da
torre de observação. Acostumado a olhar para além dos horizontes, desaprendeu a
enxergar os homens, morrendo isolado no alto da torre mais alta, sem que
ninguém soubesse o que viam os olhos que estudavam dia e noite o espaço do céu.
Inúmeros outros casos de distúrbio da
visão são encontrados ao longo da história, desde os mais raros, como a visão
microscópica, até os mais comuns, como a cegueira, o daltonismo ou a visão em
tons de cinza. A visão do futuro, do passado ou de mundos paralelos se encaixa
nos casos particulares, classificados como visionários ou sobrenaturais, sem
nenhum interesse, por razões óbvias, à ciência. À óptica, ramo da ciência que
estuda e estabelece as leis relativas às radiações luminosas e aos fenômenos da
visão, importam os casos recorrentes e aplicáveis à maioria dos homens,
suscetíveis à atribuição de leis, teorias, experiências e explicações. Pelo
caráter deficitário, em termos quantitativos, e especulatório, pela
ineficiência das provas, as exceções ficam restritas a um ramo da ciência ainda
em desenvolvimento, devido ao imensurável e ainda inconcluso trabalho de
catalogação da mentira, que dissidentes do estudo científico, adeptos de
manifestações de caráter demiúrgico, conceituam, evidentemente sem argumentos
lógicos, analógicos ou analíticos, como invenção.
Esse ramo da ciência, ainda em
desenvolvimento, chama-se Ficção.
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Contato: roalmeida@uol.com.br
Posfácio
Há
dois pontos que fazem dos poemas de Rogério de Almeida uma unidade sólida e
flexível. Um deles diz a respeito da qualidade de sua voz, uma voz de vigor
incansável, que incorpora e leva adiante desde a estrutura difícil do poema
narrativo até experiências com formas variadas. O outro é a fixação da
referência à luz, que tem paralelos generosos com a luz como Dante a
compreendia em seu intelecto, a luz tripartida em manifestações, da mais
puramente física às correspondências com inteligência e amor. Em Almenara
podemos perceber uma carreira poética em perspectiva, como fica evidente para
quem lê poemas que oscilam entre um jorro violento de imagens e certa
serenidade construtiva: é precisamente esse o caminho da sua poesia.
DIRCEU VILLA
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© by Badaró
1999